quinta-feira, 3 de maio de 2012

Vacations...

Até as férias, estou de férias. Volto das minhas férias nas féiras!

Guilherme Adriano (Preciso ir pra casa e respirar um pouco...)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Miserável mas virtuoso



Para o inocente, o poder do pecado está na curiosidade, para o culpado, está na saudade. Enquanto criança tinha curiosidade em saber como era ser devasso, depois de adulto senti saudades de ser um. É a saudade que tenho do pecado que me torna miserável, mas é no preferir sofrer essa saudade a saciá-la que encontro o prazer da virtude e, a cada escolha certa, torno-me mais íntegro. 

Pelo que tenho experimentado, a nova criatura que há em mim e que se renova dia a dia à imagem de Cristo é aquela que, agora, devido ao novo nascimento, encontra maior prazer em saciar-se no bom desenvolvimento do relacionamento Deus-homem do que em qualquer outra forma de prazer; aliás, todos outros prazeres derivam desse. Antes o que operava em mim era a saudade do pecado – o que me fazia um miserável, agora o que opera em mim é uma saudade de ser o que um dia era: ingênuo e inocente (mas não perfeito! Entendem a crucial diferença para a teologia?) “A não ser que sejam como crianças, não entrarão no Reino” (Jesus), e como é ser assim? Suponho que assim: “meninos para a malícia e homens para o entendimento” (Paulo)

Guilherme Adriano...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Desabafo de profissão...(professor apóstata)



Não é um texto sobre espiritualidade...(pouco tempo para meditar na Bíblia, mas voltarei a escrever nas férias...estágio, estágio...para quem já passou por ele, apenas uma palavra basta para entender a angústia: estágio...)

Desabafo: Muitas vezes a faculdade tem sido um empecilho ao meu aprendizado. Alunos de faculdade concordarão, quem ainda não entrou nela vai me entender um dia e quem trabalha nela não vai gostar do que disse, mas, para alguns, é bem assim! O que tenho visto em 4 anos de faculdade é que ando engessado pelas leituras abstratas e burocracia interminável. O que demorei 4 anos para aprender na faculdade, aprenderia em 1 ano por conta própria...mas o canudo, ah o canudo! O filósofo inglês Bertrand A. Russell disse algo parecido, disse que a educação era um dos grandes obstáculos à inteligência e liberdade de pensamento. Não estou dizendo que meus professores são ruins ou que não estou aprendendo, pelo contrário, são excelentes, e, de fato, aprendo, porém, em ritmo de tartaruga que boceja em câmera lenta...educadores e instituições, mais concreção, por favor, mais concreção...quantos acabam "estudando" por 5-6 anos e depois ficando, com um canudo em mãos, desempregados como qualquer outro – não temos no Brasil os analfabetos funcionais? Não seria essa situação de universitários uma variante desse fenômeno? Não seríamos, por acaso, os letrados disfuncionais, ou os capacitados sem capacidade? ...23-24 anos de nossas vidas dentro de escolas e universidades para depois sair delas e, então, começar a aprender alguma coisa. Renato Russo, na música Geração Coca-Cola, cantou que “quando nascemos fomos programados a receber o que vocês nos empurram com os enlatados” e que “desde pequenos comemos lixo” e que “depois de vinte anos na escola não é difícil aprender todas as manhas [...]” e que “não é assim que tem que ser” . Concordo! 20 anos na escola (an)alfabetizando cidadãos... não estou dizendo que essa é a situação de todas as escolas, nem que a escola é má e que a universidade é de toda ruim, não, mas estou dizendo o seguinte: relevância, por favor, mais relevância...colegas professores, vocês, como eu, sabem que a educação no Brasil está complicada, então já que não podemos mudar muita coisa mesmo, pelo menos ensine o que deves de maneira que o aluno saiba onde e por que ele usará o que quer que seja que estiver aprendendo.  Colegas professores, mais do que ensinar conteúdo, ensinem alunos a aprender... Instituições, lembrem-se de que o propósito do aluno é aprender, não memorizar.  Não apenas critico, tenho propostas...não proponho revoluções, mas vontade de ambas as partes: alunos, se vocês não quiserem aprender, fiquem em casa pelamordedeus (ou pelo menos durmam e não incomodem os que querem aprender!)...por que ir a um rodízio de pizza e não comer pizza? Ora, se não gosta de pizza, não vá a uma pizzaria!! Da mesma maneira, se não quiseres aprender, não vá à escola, mas como isso não é uma opção, então pelo menos não atrapalhe aquele que está lá porque gosta...já é difícil dar aula nas condições que temos, ainda ter que aguentar asn...quer dizer, alunos desestimulados, daí não dá! Queridos estudantes, o dever do professor não é motivá-los e entretê-los, e sim de ensiná-los o que querem aprender..seus bando de vagab...quer dizer, de jovens com potencial, ajudem no processo ao invés de atrapalhar! Professor: ensine alunos a aprender e lembre que sua profissão é honrosa...estás lidando diretamente com a formação de vida; seus alunos lembrarão de você para sempre, sempre, sempre, sempre e sempre...faça essa lembrança ser boa! Então termino como comecei: A educação tem sido um grande empecilho ao meu aprendizado e formação como professor. Solução: não há...que cada um dê jeito de melhorar sua sala de aula e relacionamento aluno-professor. 

Guilhermer Adriano, um professor estressado, um cristão desinstitucionalizado e um homem apaixonado (sim, Lara!)...logo essas coisas vão mudar, menos a última, claro!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Vergonha, um grande professor!




A Bíblia, em muitas ocasiões, não nos diz o que fazer, mas como fazer. Em muitas ocasiões nada é o que se deve fazer! E, para o cristão, há uma maneira certa de não fazer nada. Aliás, o fazer nada cristão é extremamente produtivo e recomendado em inúmeras situações! O fazer nada cristão envolve sofrimento, passivo, claro! Os filhos de Deus devem sofrer, mas não fazer sofrer. Alguém feriu tua honra? Deixa ferir! Aliás, que honra? Que honra tem um cristão para que possa ser ferida? Por acaso não morreu ela na cruz com nosso ego? Como poderíamos nos ofender e revidar quando nos acusam de mentirosos? Acaso não somos? Por que nos ofendemos e tentamos nos justificar quando acusados de hipócritas? Não somos também? Por que nos julgamos melhores que nossos acusadores a ponto de defender nossa honra com unhas e dentes? Quando fores injuriado, sofra, é isso que o N.T. ensina. Mas não só sofra, mas tenha misericórdia, e para essas duas andarem juntas é preciso que se entenda que, primeiro, você não tem honra...e segundo, és tão miserável e cabeça dura quanto o que te acusa, logo, engula o desaforo e lembre que você é como o seu acusador, a diferença entre ele e você é que você já entendeu onde está e quem é, enquanto ele ainda não conheceu a cruz do Senhor.  

A nossa baixeza é a nossa grandeza, e isso não é motivo de glória e sim de vergonha. Que bom que me envergonho, pois, tendo esperança no Senhor, sei que essa vergonha, que é a consciência do pecado que habita em mim, é o fruto de uma conversão, que é obra do Senhor.

Não se envergonhar é tão problemático quanto não chorar nem sofrer pela desgraça alheia, como escrevi anteriormente. Creio, assim como o rabino ortodoxo Manis Friedman, que a vergonha é a sugestão de que algum limite foi ultrapassado. Você sentia vergonha quando sua mãe o flagrava cantando de frente ao espelho, não? Eu sim. E por quê? Porque aquela ocasião era minha e de mais ninguém; era parte da minha intimidade; era algo que cria que ninguém mais entenderia ou apreciaria, e, mesmo se apreciasse, não importava, eram coisas bobas com as quais me divertia...era meu espaço; eram momentos em que estava vulnerável. Toda intimidade é delicada demais para ser exposta: simplesmente as pessoas não saberiam o que fazer com ela e, por isso, teriam pavor, achariam graça ou até talvez sentiriam misericórdia. Nela guardamos discursos indizíveis e pensamentos constrangedores. É lá que também guardamos nossa real carteira de identidade; é na intimidade que está nossa real foto 3x4, nome completo, filiação e endereço.

Minha intimidade é um lugar pequeno demais para mais de uma ou duas pessoas visitar. Aliás, na minha intimidade só cabe uma pessoa além de mim. Há certas coisas que só Deus e eu sabemos sobre mim, outras que apenas alguns sabem, e outras que nem eu sei, apenas Deus sabe.

Até hoje, como cristão, passei por duas grandes crises. Uma foi na minha conversão, pois foi quando Deus acendeu a luz daquele quartinho secreto, que aqui chamo de intimidade, e me mostrou o que realmente havia lá. A segunda foi quando me cansei de morar na minha intimidade sozinho.

Ter minha vida íntima exposta seria o equivalente a assistir a um leilão de minhas roupas sujas. O que é a vergonha então? É esse sentimento de que algum limite foi ultrapassado, algo que não era para ser visto foi visto por quem não deveria tê-lo visto! A vergonha é para a moralidade o que o termômetro é para o calor, disse Ravi Zacharias. Importante! 

Estamos observando, e até fazemos parte de, a geração que está aprendendo a não ter vergonha. Não no sentido geral, pois todas as gerações tiveram seus sem-vergonhas, mas em um sentido único devido à internet. Em sites de relacionamentos postamos fotos de nossas vergonhas e as louvamos (“eu bêbada na festa tal...”, “eu fora em lugar tal...”, “eu curtindo todas em tal e tal...”). No Youtube postamos vídeos falando de nossa intimidade, de maneira que fazemos público aquilo que deveria ser privado, assim destruindo a essência daquilo que dá à lembrança o sentimento de nostalgia: a exclusividade do momento e a surpresa do relembrá-lo. Com o Twitter, nem sequer pensamentos mais são íntimos. Em perfis de internet nós não nos descrevemos, mas nos reescrevemos. Lá...quer dizer, aqui, criamos um mundo onde a vergonha do mundo real é a glória do mundo virtual.

O que acontece então? Não temos mais vergonha de sermos vergonhosos. Não reconhecemos mais a baixeza como algo baixo (até os cristãos!).

Aviso às adolescentes cristãs, e não me venham com “Moralista! Fariseu!” que daí vou mandar vocês pra um lugar bem especial, ok?

...se vocês não se envergonham de postar fotos em que estejam seminuas, quer dizer, semivestidas, desculpe-me, mas há algo de muito errado com vocês. Lembrem disto também: o que é de todo mundo não é de ninguém! Não esperem ser tratadas com exclusividade se vocês não se fazem exclusivas! Lembre que em terreno público, por mais que se ponham placas dizendo “não jogue lixo”, joga-se muito lixo, já em terrenos privados lixo não chega nem perto. Se você se expõe ao mundo como um punhado de carne moída, não espere ser considerada um filé. Ao conversar com uma amiga da faculdade que estava um pouco triste, se me lembro bem por algum relacionamento que não havia dado certo, pensei em num bom exemplo que quero compartilhar. Lembro-me de que minha colega disse “ele me trocou por isso!?”, no que respondi “fulana de tal...responda-me, ‘por que as pessoas preferem fast-food do que ir a um restaurante caro?’”, ela disse “não sei Gui, por quê?”, disse “ora, porque fast-food é comida rápida! Pediu, chegou! Também é mais barato e sempre vem com um brinde! Já para ir num restaurante caro você precisa trabalhar, guardar dinheiro, vestir-se bem, e além do mais, para apreciar a comida de lá é preciso um mínimo de cultura gastronômica, enquanto fast-food é vapt-vupt e tem tudo o mesmo gosto! Não se sinta rejeitada, pois talvez ele tenha te trocado por não aguentar mais esperar a comida do restaurante caro e ter ido encher a pança no McDonald’s.” Por mais que tenha sido bem humorado meu comentário, creio que foi pertinente. Então, meninas, se vocês querem ser vistas como exóticas, não se exponham como fast-food: barata, vulgar e que se consegue em qualquer esquina. Sério, pensem nisso...modéstia não é moralismo. Não precisa ser puritana, mas não vai ser vadia, seja modesta! Sério, não force os homens a olhar para seus seios antes que possam enxergar a cor de seus olhos, pois se assim fizerem, creiam-me, não será em vocês que eles estarão pensando!


A alegria que sinto quando me envergonho é por ainda ser capaz de me envergonhar, ou seja, ainda consigo definir limites e distinguir entre private e public. Assim sabendo, quando alguém te envergonhar ou humilhar, não revide, mas aprenda a ter pena de seu acusador e ame-o, pois ele é tão miserável quanto você, apenas ainda não quis dar uma olhada no que há em sua intimidade e descobrir, como você já descobriu, que é tão vergonhoso como ele diz que os outros são.

Às vezes, não fazer nada é o que o cristão deve fazer. Deus não dirá sempre o que fazer e o que não fazer, mas o que quer que você faça, Ele espera que você faça da maneira certa.  

Guilherme Adriano

quarta-feira, 28 de março de 2012

Pensamentos: Funeral



Ao contemplar a morte percebo o valor da vida, mas ao contemplar a vida reconheço o benefício da morte.  

--

Se você quer ser feliz, não busque a Deus, pois Deus certamente o afligirá com fardos de sofrimento e pedirá a você em várias ocasiões a sacrificar o seu prazer e dar espaço ao sofrimento.  Se você quiser ser feliz nesse mundo, busque satanás, ele fará com que você não se importe mais com o sofrimento e finalmente possa ser feliz. 

Guilherme Adriano

quinta-feira, 22 de março de 2012

Responsabilidade e Amadurecimento




Não poderia ter responsabilidade sem antes ter responsabilidades. Responsabilidade é a capacidade de se lidar com responsabilidades, ou seja, sem essas não conseguiria aquela, e são aquelas que me trazem essa. Também não é a idade que a traz, mas a experiência, e essa nem sempre está sujeita ao tempo, é possível ganhar muita experiência em pouquíssimo tempo, tudo vai depender, por exemplo, da intensidade com a qual estiver envolvido em alguma tragédia e a maneira como lidas com ela.

Ninguém permanece o mesmo depois de uma tragédia, seja essa grande ou pequena. Cada tragédia, briga, decepção, etc., ou nos afasta de Deus ou nos aproxima de Deus. Tragédias não se entendem, elas, por definição, são acidentes. Acidente não é planejado, e, portanto, por mais que possua explicação, essa nunca será satisfatória. Então temos duas opções: ou nos afastamos de Deus por não conseguirmos tirar d’Ele alguma satisfação e, fazendo isso, permanecemos sem resposta, ou nos aproximamos de Deus apesar de não obtermos resposta alguma. 

Com ou sem Deus, para as tragédias dessa vida não teremos resposta. Certas coisas acontecem porque acontecem! Ponto! Não foi a vontade de Deus nem a do diabo nem a nossa, foi o acaso! Sei que certos cristãos têm uma dificuldade – não, mais até, uma incapacidade – de aceitar o acaso. Para uns, tudo deve ser a vontade de Deus, e para justificar sua preciosa teologia muitos teólogos transformam Deus num monstro sádico que predetermina cada pecado que cometemos (sim, e vocês ficariam surpresos em saber quem disse isso!), enquanto outros, devido a uma obsessão doentia pelo diabo, atribuem tudo de ruim a ele. O que houve com o “não sei!”? Jesus não nos mandou ter todas as respostas, mas nos mandou ser a resposta. Entendes a diferença?Não tenho as respostas para muitos sofrimentos, mas posso ser a resposta para eles. E em meio a tragédias assim, como dizia antes, ou nos afastamos de Deus em amargura e rebeldia ou nos aproximamos de Deus em humildade e confiança. 

A cada desgraça que acontece em nossas vidas nos tornamos mais ou menos responsáveis. Responsabilidade vem com experiência, experiência não vem com o tempo, e sim com uma vida bem vivida. Conheço gente de idade que não é experiente e gente experiente que não é de idade.

Com a responsabilidade, vem o amadurecimento. Uma vez me disseram que precisava ser mais maduro. Mas o que é ser maduro? Acho que sei! Uma fruta quando está madura está pronta para ser retirada da árvore e consumida. Se essa é a lógica da maturidade na natureza, então deve ser essa nos homens também. Um homem maduro deve ser aquele que, desligando-se de onde cresceu, pode alimentar o mundo com seus frutos e sementes. Se uma fruta madura é uma fruta pronta para ser consumida, então um homem maduro é um homem pronto para servir de sustento para outro alguém (seja financeiro, emocional ou espiritual).  

Creio que ser responsável e maduro não tem tanto a ver com Cronos como com Kairós, i.e., não com o decorrer do tempo cronológico e o amadurecimento biológico tanto como o decorrer do tempo de Deus e o crescer no Espírito.

Se sou responsável e maduro, não sei, mas Deus sabe, e isso basta. Enquanto eu acho e os outros presumem, Deus conhece. Então que bom, deixa nas mãos d’Ele e segue em frente crendo e vivendo, pois no final, é a fé que sustenta tudo, tanto para o crente quanto para o descrente, todos nós vivemos por fé.  

Guilherme Adriano

sexta-feira, 16 de março de 2012

Pensamentos: moda

Quando pequenas, as meninas tinham vergonha daquilo que hoje chamam de moda: nudez. Não digo mais que algumas meninas andam por aí semi-nuas, e sim semi-vesitdas. 





sexta-feira, 9 de março de 2012

Resposta ao leitor: Como conhecer a Deus profundamente?


Resposta à pergunta do Formspring.

Sugiro que você salve esse texto em Word, imprima-o e leia-o sentado debaixo de uma árvore com uma Bíblia ao seu lado para checar coisa com coisa – ler no computador não é muito recomendado, a atenção não é a mesma!

A resposta mais curta à pergunta seria outra pergunta: Como conhecer seu vizinho profundamente? Ora, conhecendo-o! Tirando seu tempo para falar com ele e aprender coisas dele! Com Deus é a mesma coisa, há a Bíblia e a oração. Se não conhecemos o que está escrito, para quem oramos? Se conhecemos e não oramos, como nos relacionamos? Entre em contato com quem foi Jesus (Novo Testamento) e a Ele ore buscando conhecê-lo. Por mais de 2000 anos isso tem sido eficaz. 

O texto está divido em:

(1)   Introdução ao assunto.

(2)   Através de Jesus.

(3)   Problema do mal no homem.

(4)   Sentimentos traduzidos em arte.


(1) Introdução ao assunto.

Achei esse pergunta genial; difícil de saber por onde se começar a resposta e sem previsão de terminá-la. Encontro-me agora sentado à mesa da biblioteca da universidade onde estudo (Furb) com frio, pé muito machucado – por há uns dias ter tropeçado em meu ventilador ao acordar desesperado e correr, meio dormindo, à porta para atendê-la – e com alguns livros abertos à minha frente pensando: “uma resposta puramente teológica seria um fardo pesado, tedioso e inacessível ao entendimento do menos erudito, já uma resposta puramente pessoal seria subjetiva demais e faria o leitor refém das minhas experiências pessoais, que se imporiam como norma”. Sei disso por já ter sofrido os dois casos. Já tomei as experiências pessoais de outros e suas paixões como norma de vida cristã, e também já me perdi em abstrações filosófico-teológicas que me alienaram da simplicidade praticidade do Evangelho de Cristo. Devo sempre cuidar – e você também, leitor! – e saber dosar conhecimento e caridade.

Sem caridade, filósofos, pensadores, intelectuais e afins são inúteis. Paulo escreveu: “E ainda que [...] conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, [...] e não tivesse amor, nada seria.”. Para que serve uma mente brilhante que não se comove com a dor alheia? Não é quase essa a definição de sadismo? Para que serve um intelecto apurado quando o coração é duro, indiferente e incapaz de condoer-se? Não é a incapacidade de se compadecer característica em assassinos cruéis?

Inteligência e erudição não são sinais de sabedoria. Deixe-me brevemente diferenciá-las. Inteligência pode ser definida, de acordo com o dicionário, como a “capacidade de aprender facilmente”. Erudição é sinônimo de conhecimento, assim um erudito é alguém que possui amplo conhecimento em várias áreas. Sabedoria é a arte de “saber fazer”. Mas saber fazer o quê? De acordo com Provérbios, saber fazer o que é certo. Segundo os ensinamentos de Jesus, dos apóstolos e de Salomão é possível ser inteligente e não ser sábio. Também é possível ser erudito e não ser sábio. Também é possível ser inteligente e erudito e não ser sábio. Também é possível ser sábio sem ser muito inteligente nem muito erudito. Também é possível ser os três! Conheço pessoas inteligentes e tenho professores eruditos, mas preferiria pedir conselhos sobre a vida a uma senhora velha que conheço do que consultar meus ex-professores de ensino médio. Não vou estender esse assunto, mas gostaria que ficasse claro que há diferença entre ser Sábio, Inteligente e Erudito.  Então, como Paulo escreveu, para nada serve conhecer muito, aprender muito e não saber resolver os problemas básicos da vida.

Em contrapartida, também está escrito em Romanos que não é bom ter zelo sem conhecimento, e em Oséias, que o povo de Deus se destruiu por faltar-lhe o conhecimento – repare que o conhecimento das escrituras gera a sabedoria! Há tantos falsos profetas na cristandade por apenas um motivo: falta de conhecimento, voluntária ou não, das escrituras pela parte do povo. Afinal, como poderiam julgar senão através das escrituras? Sabemos o que é lobo e o que é servo através dos ensinamentos de Jesus, e sendo que esses estão fielmente registrados no Novo Testamento, como poderíamos distingui-los senão pelos Evangelhos?

De acordo com Paulo, é possível ter zelo pelas coisas de Deus sem o entendimento delas (Rom 10:2). Tal zelo produz outro infortúnio: a falsa expectativa. Um indivíduo de fé ingênua e acrítica facilmente se apaixona pelo carisma de alguém que sabe usar bem as palavras e se destrói tentando reproduzir as experiências de fé desse alguém em sua própria vida. Já caí nesse erro. Ao escutar as histórias de vida de irmãos meus, que já há anos caminhavam com o Senhor, pensava que, para ser cristão genuíno, deveria ser como eles e ter as mesmas experiências. Ah, como estava enganado; ah, como tentei reproduzir essas experiências em minha vida, e como me decepcionei – comigo mesmo. Estava olhando para homens e não para Cristo; estive olhando para intimidade de vida com Deus dos outros e esperando que assim fosse comigo enquanto desatento do fato de que cada um é cada um e que cada um recebe de Deus o quanto d’Ele busca. Desapontei-me quando, em alguns anos de fé, não tive o que meus irmãos tiveram numa caminhada de mais de vinte anos. Mas é claro! E como poderia? É o mesmo que um aluno de quarta série querer saber o que um professor de faculdade sabe. Que ingênuo era, claro que tentei em vão. Certas experiências só vêm com a maturidade, e essa só vem com o tempo. Tinha zelo, mas não entendimento. Em meu zelo sem entendimento devo ter machucado muitas pessoas. Em meu zelo sem entendimento tentei impor moralidade à base da força. Não estava errado em minhas opiniões, mas estava errado na abordagem. Espero que as pessoas que um dia machuquei saibam que errei e que estou arrependido; infelizmente não tenho mais contato com elas. Zelo sem entendimento transparece como moralismo para quem não crê, hoje sei.

Com isso tudo sugiro que uma resposta apenas intelectual ou apenas pessoal seria inútil. Vou explorar as duas frentes da resposta: a mais objetiva e a pessoal. Como conhecer a Deus profundamente? Que excelente pergunta! Não é comum ver perguntas assim profundas sendo feitas a rapazes de 24 anos de idade e solteiros, não? Por que não? Primeiro, porque sou novo, não tive experiência de vida suficiente para dar uma resposta profunda. Segundo, sou solteiro. O que um solteiro sabe dos problemas da vida? Sim, sei muitas coisas e já tive muitos problemas e posso aconselhar a respeito de muita coisa, mas vou até certo ponto. Se você acha que a vida é problemática, case-se, daí entenderás que o buraco é mais embaixo – aliás, há na Bíblia uma promessa de que quem se casar “sentirá dores na carne”. Relacionamentos não são pra qualquer um; é coisa de homem! Coisa de mulher com fibra! É bonito, imagino, mas é penoso. Aprendi que o potencial para o bem de algo normalmente é proporcional ao mal que pode causar, ou seja, ou um relacionamento é um pequeno vislumbre do paraíso ou ele é uma amostra do inferno. Não há meio termo, e quando há, deixou de ser relacionamento. Quando as partes se tornam apáticas, indiferentes, acabou o relacionamento e começou o acordo social. (Calma, já já chego ao assunto da pergunta!) 

Vou tentar responder à pergunta porque acho que Deus me capacitou a isso durante meus meros 5-6 anos de caminhada com Ele. Agradeço a Deus por ter me concedido sabedoria – por favor, não estou me gabando, mas gostaria de partilhar como hoje sei o que sei e por que escrevo tanto nesse blog: um dia estava lendo a Bíblia e não entendendo nada. Irritado, ajoelhei-me e orei, “Senhor, não entendo o que está escrito, me ajude!”, levantei-me e continuei a ler, Mateus se não me engano. Continuei sem entender uma vírgula. Então, muito irritado, levantei-me e dei um soco na parede de casa tão forte que a parede tremeu e esbravejei “Deus, que m*rda, não entendo!! Quero entender!!”. Fechei os olhos e disse, “ Perdoe-me; ajude-me a entender todas as tuas coisas; dá-me a graça de entender a tua palavra e as tuas coisas; ensina-me a pensar profundamente!”. Está escrito, em Tiago, que, “se a alguém faltar sabedoria, peça-a a Deus e ser-lhe-á concedida”. Eu pedi. E como pedi! Infelizmente poucos pedem coisas assim hoje. Muitos querem bênçãos materiais, milagres, ajuda do alto para passar em provas (o que chamo de cola divina), mas poucos querem sabedoria (a arte de saber fazer o que é certo!).  Hoje vejo que Deus respondeu minha oração. Não sou um grande pensador, mas entendo o suficiente, e só Deus sabe a profundidade das conversas que tive com amigos; só Deus sabe. Hoje afirmo categoricamente que não há prazer maior que uma conversa profunda. Nem o sexo. Isso mesmo, nem o sexo. Pelo menos para mim. Durante uma conversa profunda, mentes cospem seus desgostos e ilusões, olhos choram decepções, risadas trocam experiências, argumentos constroem ideias e a troca de sofrimentos constrói amizades que duram para sempre. Sexo é bom. Eu sei. Mas dura pouco. Uma conversa pode durar o quanto o conversador aguentar! Ah, que prazeroso é conversar. Mas falo de conversar, e não fazer de conta que é inteligente ao citar trocentos autores para, por vaidade, parecer erudito. Se você não gastou mais de três horas conversando com alguém sobre a vida, você nunca conversou! Com uma das pessoas mais amadas que conheço já conversei, uns anos atrás, por mais de seis horas: começamos à noite e vimos o sol subir! Não conheço muitas pessoas que saibam conversar. Aliás, conto em uma mão as pessoas com quem posso conversar seriamente por mais de dez minutos. Já conversei por horas e horas com mendigos (experiência que todo cristão deveria ter!), com amigos, com pastores, teólogos, enfim, muita gente, e sugiro que se você não tem essa prática, ore, peça-a e vá fundo, a experiência de vida que se absorve dessas ocasiões é incomparável.

Com isso tudo dito, acho que sou capaz de me arriscar a responder à pergunta de “como conhecer Deus profundamente” mesmo sabendo de minhas limitações e desvantagens, e até às vezes, falta de conhecimento profundo de Deus.

(2) Através de Jesus.

O primeiro e mais importante ponto é Cristo. Jesus disse que “ninguém chegaria ao Pai senão por Ele”, e que “conhecer e ver Ele era conhecer e ver o Pai”, porque tudo que podia se saber de Deus estava manifesto em Jesus. Quando os discípulos pediram “mostra-nos o Pai!”, Jesus respondeu, “Vocês andam tanto tempo comigo e ainda não o viram?”. Jesus foi extremamente exclusivista ao dizer que não poderia haver relacionamento com Deus senão por Ele. Quem deseja conhecer Deus deve conhecer Jesus, Seu Filho, pois no Filho o Pai habita e o Filho no Pai, assim está escrito. Diferente das outras religiões, que são um tipo de escada para chegar a Deus, em Jesus, Deus desce a nós! Em outras religiões você segue regras e rituais para chegar perto de Deus, em Jesus, Ele desce a nós e diz “deixai vir a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos céus...e quem não for como uma delas não pode entrar no reino dos céus”. Jesus também contou a parábola do pastor que abandona todas suas ovelhas para ir atrás daquela que se perdeu, e outra de um filho rebelde cujo pai, após ter sofrido a perda desse filho que o abandonara, vigia noite e dia na expectativa de sua volta. Jesus é esse Deus que deixou sua glória e veio em busca dos homens. Ele é esse Pai que fica na expectativa do retorno de seus filhos rebeldes.

Quem quiser conhecer a Deus profundamente, que conheça Jesus.    

(3) Problema do mal no homem.

Filósofo e matemático francês, Pascal argumentou que conhecer Deus sem se conhecer gera arrogância religiosa, e conhecer a si mesmo sem conhecer Deus causa desespero, mas conhecer Deus e a si mesmo gera esperança e alegria. Um dos grandes obstáculos à fé genuína hoje é a presunção. Desde o iluminismo o homem vem pensando demais de si mesmo. Em Pensamentos, Pascal argumenta sobre as grandezas e misérias da natureza humana e como, infelizmente, tendemos ao extremo de pensarmos ou somente em nossas grandezas ou somente em nossas misérias. Mas, se ao reconhecermos nossas misérias formos de encontro a Deus, podemos exercitar nossas grandezas sem nos vangloriarmos demasiadamente e assim sofrer nossa maior miséria: orgulho. Eis o primeiro obstáculo ao conhecimento de Deus: a falta de conhecimento de nosso próprio pecado. Da mesma maneira que nunca saberíamos o que realmente é o doce sem antes ter provado o amargo, assim também nunca saberemos quem é Deus sem antes saber quem somos.

Jesus ensinou que é impossível chegar a Deus sem arrepender-se. Arrependimento só é possível quando percebemos o que fizemos, e só entendemos o que fizemos quando Deus nos diz; quando Ele nos mostra uma foto – sem photoshop – de quem realmente somos, e isso ocorre quando humildemente passamos a coroa e cedemos o trono de nossas vidas para Jesus e confessamos, como C.S. Lewis relata em sua relutante conversão, que “Deus é Deus”, de espírito dobrado perante o Senhor.

Alguém disse que nós nos presumimos, já Deus nos conhece. Ele sabe do que somos capazes, nós não; nós é que precisamos entender do que somos capazes antes de expressarmos toda essa capacidade! Claro, o homem é capaz de maravilhas, mas na mesma proporção, é capaz de coisas inimaginavelmente terríveis. Não estou falando de Hitlers e Stalins, estou falando de nós. Dadas as circunstâncias, seríamos terríveis. Permita-me dizer a verdade segundo as Escrituras: você, paulista, carioca, catarinense, nordestino, internauta no geral, é um pervertido, perverso, vingativo, presunçoso, orgulhoso, mentiroso, imoral e violento ser humano. Não digo isso por ser melhor, mas por também, por natureza, ser assim. E todas essas maldades escondem-se na forma de sementes em nossos corações. Uma semente quando cai em terra bem alimentada cresce, frutifica e alimenta quem por ela passa. Sendo nossos corações, de acordo com Jesus, cheios de “maldade, violência e prostituições” e as poluições morais do mundo adubo inesgotável, temos ao nosso alcance a possibilidade de nos tornarmos o pior tipo de ser humano, o auto-suficiente; soberano e senhor de si mesmo. A vontade do ser soberano sempre prevalece. Enquanto você for soberano em seu coração, sua vontade será feita custe o que – ou quem – custar.

Jesus disse que quem não for como uma criança não entra no Reino dos céus. Crianças dependem de seus pais. Assim, o cristão depende do Pai. A criança molda sua vontade de acordo com os conselhos e comandos do pai, assim também faz o cristão para com o Pai. 

Sua consciência testifica contra você toda noite antes de pegar no sono, nos momentos de raiva e de solidão. Eu não preciso ir longe tentando demonstrar que você tem maldades indizíveis percorrendo sua mente e escondidas em seu coração. Por acaso gostarias de ter seus pensamentos reproduzidos em alto volume e boa imagem? Eu não. E por um simples motivo: são maus. Sendo que meus pensamentos são meus e fazem parte de quem sou, concluo que deve haver algo de errado em mim.

Jesus disse que precisamos não de uma reforma, mas de transformação; não de melhoramentos, e sim de revolução. Jesus não veio nos ensinar uma vida melhor, Ele nem sequer considerou o que tínhamos como vida, antes acusou-nos de estarmos “mortos em nossos pecados”, “vivendo em trevas”, “perdidos”. Estar perdido é um problema. Estar perdido e no escuro é pior. Mas estar perdido, no escuro e morto, é o cúmulo da desesperança. Como na parábola do filho pródigo, a humanidade se encontra agora gastando as riquezas do Pai nas futilidades da vida. Cabe a cada um tomar a decisão de voltar à casa do Pai enquanto Ele está lá, vigiando, para quando avistar um filho arrependido voltando, sair a seu encontro para abraçá-lo, perdoá-lo, lavá-lo, vesti-lo e festejar seu retorno com um banquete, a saber, o do cordeiro.

“É sem dúvidas um mal ser cheio de defeitos; mas é ainda um mal maior ser cheio deles e não querer reconhecê-los, isso é juntar aos defeitos uma ilusão voluntária”. Nossa condição é ruim. Mas não reconhecer nossa condição é pior ainda, pois adiciona a todos os defeitos a auto-ilusão, disse Pascal. Alguns iluministas disseram que nascemos como uma tabula rasa e é a sociedade que nos desvirtua. Será que alguém os perguntou, então, quem desvirtuou a sociedade? Ora, se a sociedade é quem corrompe o homem, pergunto, “então quem corrompeu a sociedade?”, e a resposta será “o homem!”. O culpado é sempre o homem.

Ah, quantas e quantas vezes escutei ateus culpando Deus em quem não acreditam por cometer crimes terríveis, enquanto não percebem que caem em contradição ao acusarem-no e condenam-se ao negarem-no. Pois veja, se Deus existe, então os homens são culpados por cometerem atrocidades e acusarem-no por ter nos criado livres, e se Deus não existe, somos culpados por cometer atrocidades e jogar a culpa num ser imaginário. Se Ele existe, somos culpados. Se Ele não existe, somos culpados. Somos sempre culpados. Eu e você. Infelizmente não gostamos de admitir tal fato, fere o orgulho. Mas a antropologia da Bíblia é desagradável. É um punhado de areia nos olhos do homem moderno – não estou dizendo que somos completamente perversos, como dizem algumas teologias incoerentes e como foi a figura do homem pintada pelos homens da idade medieval, estou apenas ecoando a voz da Bíblia! Lembro-me da reação de meu amigo quando veio a mim triste dizendo-me, “cara, Deus se arrependeu de ter nos feito, de acordo com Gênesis”; versículo pesado. Valioso ao estudo da natureza humana! Jesus também disse que “é do coração humano que procedem todas as maldades”.

O que diz a Bíblia sobre o homem? --(Romanos 3:10, Gálatas 5:19, Mateus 15:18-19, Isaías 65: 2, 64: 6, 59: 2-15. Oseias 4:1. Jeremias 9: 2-6. 10:8.Tito 3:3. 2 Timóteo 3). Os homens caíram. Hoje são maus porque querem fazer maldades. Gostam da maldade. Suas maldades foram tantas e tão perversas que para salvá-los foi necessária a morte de Deus. A cruz, diz Paul Washer, não é um símbolo de quão valioso o homem é, mas sim de quão perverso ele é, pois só a morte do Filho de Deus seria o suficiente para perdoá-lo.

Certa vez G.K.Chesterton foi convidado, junto a vários outros escritores, a escrever um artigo intitulado “o que há de errado com o mundo”; sua resposta foi:

         Caros Senhores,

         Eu.

         Sinceramente, Chesterton.

Cada eu é o problema. Egoísmo! Ego em latim significa eu, enquanto o sufixo -ismo geralmente indica uma categoria, ideologia ou doutrina religiosa. Assim sendo, egoísmo significa a ideologia do eu, ou também religião do eu.  Quando eu é o ponto de partida e chegada, nós deixa de existir e o amor é sacrificado no altar do progresso dando caminho à busca da felicidade pessoal, assim como declara a constituição americana. O problema é que a minha felicidade pessoal talvez seja a miséria de meu vizinho.

  
Jesus, com uma frase, joga por terra toda prepotência dos Gregos e iluministas, acaba com o superman nietzscheano e a visão moderna e pós-moderna do homem afirmando, ao contrário deles, que o homem caiu e é o seu maior problema, ao passo que também eleva o ser humano a mais alta posição nesse universo e o dignifica como sendo “portador da imagem de Deus” e “templo de habitação do Deus altíssimo”.

Ele rebaixa sem humilhar e enobrece sem exaltar. Em Jesus antropologia ganha outra perspectiva.

Aprendi assim, que uma vez perguntaram a Jesus se deveriam ou não pagar impostos a Roma. Jesus pega uma moeda e pede a seus inquisidores, “de quem é a imagem cravada na moeda?”, “de César”, respondem. “Então deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” responde Ele. A conversa termina por ali, mas creio que se tivessem sido mais espertos ainda teriam levado a conversa mais longe perguntado: “Mas mestre, então o que é de Deus?”; creio que Jesus teria respondido perguntando: “E de quem é a imagem cravada em vocês?”.

Como conhecer Deus profundamente? Primeiro reconhecendo que Deus é Deus e nós somos apenas homens. Ele não precisa de nós, mas nos quer, em contrapartida, nós precisamos d’Ele, mas não o queremos. Quem viu a si mesmo sem maquiagem reconhece que Deus é bom e conhece sua misericórdia.

(4) Sentimentos traduzidos em arte.

Até um tempo tinha um problema com as artes. Para mim muitas coisas não fazem sentido na arte! Que diabos quis dizer Lindolfo Bell com alguns de seus poemas? Onde está a beleza de certas pinturas surreais? Até que, tomado por uma ardente paixão, escrevi um poema. Depois, afogando-me em tristeza e desespero pelos seres humanos, chorei e escrevi outro. Aí entendi! A arte não é para ser entendida, e sim sentida! Poemas quando lidos sem emoção são ridículos; eles são a grafia dos sentimentos do poeta. Na maioria, não são para se entender, mas para se sentir. Quem não partilha do sentimento do poeta não sente seu poema, logo, não compreende que não há o que compreender! Poesia é o sentimento que nasce no coração do poeta descrevendo sua admiração pelo objeto admirado, seja esse uma pessoa, uma paisagem, etc. O entender que a arte deve ser sentida antes de pensada ajudou-me a conhecer Deus. Já explico como.

Minha família é de artistas. Minha mãe desenha e escreve, minha tia e minha prima desenham muito bem e minha outra tia, e alguns tios-avós, pintam. De algum modo herdei essa veia artística. Houve uma época em que, modéstia à parte, desenhava muito bem – hoje perdi a prática, mas ainda tenho uns traços na manga. Gastava muito tempo na produção de histórias em quadrinho, desenhos surreais e figuras humanas. Desde pequeno tenho o costume de contemplar desenhos, pinturas e paisagens, e hoje entendo que a arte revela os sentimentos do artista. As cores, os traços, as sombras, as expressões, enfim, toda a obra faz transparecer os sentimentos de quem as criou enquanto as criava. Hoje posso perceber em meus desenhos, que guardo com muito cuidado, o que sentia enquanto os desenhava. Tenho desenhos cujos traços são delicados, leves, redondos e apresentam muitos detalhes, e, ao analisá-los, lembro o que sentia. Ah, quanta fantasia se passava em minha mente enquanto desenhava meus seres sobrehumanos; quanto carinho sentia ao desenhar o rosto de amigas queridas; que risadas nostálgicas dou quando olho as caricaturas de professores e amigos que vivia fazendo quando estava entediado em sala de aula ou trabalhando em algum projeto. Hoje entendo que a pintura e o desenho são representações do que o artista está sentindo. Sentimentos bonitos ganham formas e cores na mão do artista.

Por favor, não estou tentando me passar de artista, apenas construindo um argumento que chegará a Deus. Logo trarei tudo isso a uma conclusão.

Também não sou músico, mas me dou razoavelmente bem na musicalidade. Após ter me interessado por música clássica (barroca e romântica especialmente) dediquei-me, e ainda me dedico, à criação de pequenas composições de violão clássico. Nada complexo, mas melódico e com pegada barroca. As emoções de alguém que compõe uma música ficam ainda mais evidentes do que aquelas de quem desenha ou pinta. É mais fácil sentir a música do que a pintura. Tento imaginar o que sentia Beethoven quando compôs Sonata ao Luar, ou Ode to Joy; imagine o desespero que levou Mozart a criar seu Requiem; o que se passava no coração de Chopin para transformar algumas notas musicais em Noturno? Quando cientistas tiveram a ideia de gravar uma mensagem e emiti-la universo afora na esperança de que alguma outra civilização inteligente a captasse, quiseram incluir nela uma música de Bach como prova de que aqui havia vida inteligente. Comentando a ideia, Carl Sagan, astrônomo famoso, disse algo como “Isso seria se gabar!” (That’s just showing off!)

Para mim, e creio que para muitos outros, a música é sentimento traduzido em sons.

Seja na poesia, no desenho, na pintura ou na música, a mente do artista está à mostra através de sua obra; sua vida interna é trazida para fora em representações gráficas, visuais e sonoras.

Com esse entendimento perguntei-me, o que sentia o coração de onde emanou o Amor? O que se passava na mente que deu origem ao universo? O que sentia e o que pensava Deus ao criar a natureza, os animais e o ser humano? Que tipo de imaginação dá origem a uma natureza assim? A profundidade dessas perguntas tão clichês pode apenas ser alcançada quando tais perguntas forem propriamente sentidas! Sentimos o encanto da natureza, da vida e dos sentimentos, então perguntamos – segundo Aristóteles, esse é o sentimento de espanto e admiração que dá origem à filosofia.

Por ser dado às artes posso dizer que os mais bonitos – e às vezes mais tristes – sentimentos são expressos nas artes. Toda arte é uma criação. O cosmos e a vida são criações. Logo, o cosmos e a vida são arte. Por isso posso dizer que a criação fala do coração e do pensar de Deus. “E o que dizer sobre a violência da natureza e os acidentes do mundo, eles também representam a vida interna de Deus?”, imaginei a objeção. Ora, a única culpa que, por exemplo, Leonardo DaVinci teria de um de seus alunos tê-lo afrontado seria a de permiti-lo expressar-se livremente em sua presença. Que culpa teria DaVinci se seu aluno jogasse um balde de tinta em sua Mona Lisa? Deus pintou o quadro perfeito, o homem jogou nele um balde de tinta. Deus criou a natureza, o homem a corrompeu. 

Vou muito a cachoeiras com amigos e sou observador de estrelas, e digo que não há nada mais belo do que uma queda d’água e um céu estrelado. Que lindo é o coração do Deus que criou coisas assim? Só quem é admirador da natureza consegue compartilhar de meus sentimentos ao escrever isso!

Como conhecer Deus profundamente? Observando aquilo que fala do que Deus é. “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas”, escreveu Paulo. O cosmos é o quadro que Deus pintou por amor a nós. 


Guilherme Adriano

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...